🇺🇸🇧🇷Basketball Stories

Basketball stories told by Alice Barbosa, sports writer and Árbitros NBA CEO.

Histórias do basquete contadas por Alice Barbosa, jornalista e CEO do Árbitros NBA.

Texts in English and Portuguese /Textos em inglês e português.

Quin Snyder: quantas redenções têm a vida de um felino?
Quin Snyder em ação no Utah Jazz. Foto: SB Nation.

Algumas pessoas externam seu totem animal. Quin Snyder é uma delas. O técnico do Utah Jazz se parece com um gato esguio. O olhar que freneticamente acompanha seus jogadores em quadra, a atenção ao esquema tático desenhado por ele. Porém, ao se movimentar freneticamente ao mínimo esboço de uma jogada malfeita ou de uma marcação de falta, Snyder vira (outro) bicho. Seus braços balançam rapidamente; as mãos são passadas nos cabelos que, mesmo com gel, sempre estão desalinhados.

A temporada de 2020/21 parecia ser a recompensa dos árduos sete anos à frente do Utah Jazz. Uma franquia sem campeonatos, com apenas dois títulos de conferência (1997 e 1998) e que recentemente esperava que a dedicação de Snyder ao grupo gerasse o tão esperado troféu da NBA. 

O início da temporada foi um recorde da franquia – 23 vitórias e cinco derrotas. Donovan Mitchell e Rudy Gobert eram uma dupla de explosão. O pivô francês ganharia pela terceira vez o título de Defensor do Ano, blindando o garrafão do Jazz. Joe Ingles revertia sua experiência em partidas sólidas. E Jordan Clarkson fez valer, desde o começo, o título que ganharia, de Sexto Homem da NBA. 

Quin Snyder colocou nos holofotes muitos de seus pupilos, mas como a vida é luz e sombra, yin e yang, o mestre não teve seu momento de glória. Como não planejado e muito mesmo previsto, o Utah Jazz, primeiro da Conferência Oeste, caiu cedo demais na temporada, perdendo a segunda rodada dos playoffs, as semifinais, para o inconstante Los Angeles Clippers. O Jazz, contudo, venceu as duas primeiras partidas em Utah. Mas os angelinos ganharam quatro jogos e despacharam para casa um dos favoritos ao título. 

Mais uma queda na trajetória do cidadão de 54 anos nascido em Mercer Island, no frio estado de Washington. E quem vem ao mundo em um lugar de águas tem uma percepção diferente da vida, diriam alguns. Snyder talvez encare seu ciclo terrestre como uma parábola ou um gráfico irregular com periódicas subidas e descidas. 

Armador na Duke por quatro anos, fora das quadras ele aproveitou a estadia na tradicional universidade para se graduar em Filosofia, Ciências Políticas e Direito. E na panela de pressão do Cameron Indoor Stadium, ele atravessou as quatro linhas e ocupou o banco dos Blue Devils por seis anos, de 1993 até 1999. Ele foi de assistente administrativo até técnico associado, conquistando espaço na equipe do firme Mike Krzyzewski. 

Mas à beira dos frenéticos anos 2000, Snyder deixa o grupo do Coach K e assume a liderança do time da Universidade do Missouri, o Tigers. O sucesso no Mizzou fez com que ele fosse convidado, em 2003, para ser técnico assistente de Tom Izzo, da Michigan State, na equipe dos EUA dos jogos Pan-Americanos de Santo Domingo. Na ocasião, a equipe estadunidense ficou em quarto lugar no torneio.

Quin Snyder, em Missouri, discute uma falta com o árbitro Ed Hightower. Foto: AP Photo/L.G. Patterson

Porém, em 2004, o basquete não foi protagonista na vida de Snyder. Ele foi citado em 17 acusações em uma investigação conduzida pela NCAA, a liga universitária esportiva dos Estados Unidos. O processo envolvia violações nas estritas regras de relacionamento entre os times das instituições educacionais e os jogadores. Os assistentes de Snyder teriam dado dinheiro, presentes e refeições ao armador Ricky Clemons, além de terem supostamente entrado em contato com recrutadores de basquete.

O atual técnico do Jazz relata que eventualmente recebeu o jogador para uma refeição em sua casa, e que deu a ele algumas roupas. As acusações não foram levadas adiante pelo comitê, porém a turbulência levou Snyder para outros ares. Em 2006 ele se demitiu da equipe, mas depois foi informado de que seria desligado do Mizzou de qualquer maneira. Até hoje paira-se a dúvida de que se Snyder foi demitido ou pediu para sair. 

À época, uma foto viralizou, mostrando um Snyder curtindo o famoso Carnaval de New Orleans, visivelmente embriagado. O direito à privacidade parece ser esquecido quando alguém assume a liderança de uma equipe de basquete, seja na NBA ou universitária. E o (falso) moralismo esportivo cobra sua conta. 

O Quin Snyder de hoje vende a imagem de um técnico intenso, que intercala as explosões em quadra com simpáticos vídeos no YouTube de receitas culinárias. Em uma delas, ele conta como a torta de sorvete é uma sobremesa que o relembra de sua infância e de sua mãe. Já em outro vídeo, vemos o técnico fazendo um saudável smoothie ao lado de seus filhos:

A redenção de Snyder até a NBA passou pelo estágio probatório na D-League, a antiga G League. Após pensar em largar as pranchetas do basquete depois do escândalo de Missouri, ele assumiu o Austin Toros, que era filiado à franquia do San Antonio Spurs. E estar nas terras texanas significava fazer parte do mais cobiçado – e cobrado – guarda-chuva hierárquico da NBA: o de Gregg Popovich.

Após alternar entre céu e inferno, Snyder pegou com unhas e dentes a missão do Toros. Ele cobrava profissionalismo extremo dos jogadores da antiga liga, que levava a fama de ser um lugar para atletas que não foram bem-sucedidos na NBA. Os resultados logo apareceram: em 2007, na sua primeira temporada, levou o Toros às finais da liga. 

O bom desempenho de Quin na D não somente deu a ele um passaporte para a NBA, mas também levou seu assistente por mais de dois anos, Taylor Jenkins, para as estreladas quadras da maior liga de basquete profissional masculino do mundo. O jovem assumiria, em 2019, o cargo principal do banco do Memphis Grizzlies. 

Em 2010, Snyder segue para a Filadélfia, para ser técnico de desenvolvimento do 76ers. Daí, o felino Quin voou anualmente de time, passando por Los Angeles Lakers, CSKA Moscow e Atlanta Hawks, até finalmente pousar na tradicional e religiosíssima Utah para comandar o Jazz. 

Se os gatos têm sete vidas, Quin Snyder gastou no mínimo umas seis em sua jornada de altos e baixos no basquete. 

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