Entrevista: Cauan Santos, árbitro FIBA, fala do recomeço após lesão e da carreira internacional

Em 10 meses eu precisei aprender a andar novamente

Cauan Santos

Confira nossa entrevista exclusiva com Cauan Santos, árbitro FIBA, sobre lesões, desenvolvimento profissional e empreendedorismo.

Como você começou a carreira na arbitragem?

Iniciei na arbitragem após decidir parar de jogar basquete, porque tive uma lesão no joelho (LCA – ligamento cruzado anterior). Precisei fazer uma cirurgia e muitas sessões de fisioterapia. Como já estava na faculdade de Educação Física, resolvi parar de jogar e conheci, antes da arbitragem de basquete, outras áreas de atuação, como a recreação, que está presente na minha vida até hoje. Sou muito grato por tudo que tenho – até arbitragem de natação e atletismo. Mas na época que decidi parar de vez de jogar, eu trabalhava com arbitragem de natação e com recreação aos finais de semana, e então a Federação Mineira de Basquetebol trouxe para Uberlândia o curso de arbitragem de basquete. Um grande amigo meu, o Gregório (nota: Gregório Aguiar Lelis), que também é árbitro do NBB, me convidou para fazer o curso de iniciação com ele. A curiosidade é que, desse curso, saíram três árbitros que estão no NBB hoje; a Maria Claudia Comodaro também estava nesse curso.

Você já tem uma meta estabelecida a alcançar como árbitro, ou vai seguindo no dia a dia da profissão? 


Em relação a metas na arbitragem, é muito louco falar disso, porque quando comecei, eu queria apenas apitar uns jogos pra ganhar uma grana extra, e tive pessoas muito boas me apoiando no início de tudo. Sempre falo que, junto com o Gregorio e a Claudinha, nós fomos subindo juntos e criando novas metas pra carreira. Então o apenas “ganhar uma grana extra” virou querer melhorar e estar em grandes jogos, e depois trabalhar internacionalmente. Acredito que no momento que estou da carreira, apenas vivo o dia a dia. Não que tenha conquistado tudo, mas faço meu trabalho na arbitragem com muito amor pelo esporte e somando as amizades que faço. Isso que me motiva; se amanhã eu simplesmente não me sentir bem dentro da quadra, acredito que encerraria a carreira de forma tranquila e feliz por tudo o que fiz.


Como foi a transição até ser um árbitro FIBA?

A minha caminhada até me tornar árbitro FIBA foi bem aproveitada, e com certeza muito prazeirosa. Em 2012 fiz o teste para árbitro nacional, e tive também a oportunidade de ser um dos melhores árbitros do país e trabalhar no NBB. Mas, com toda certeza, a melhor escola que tive foi a LDB (Liga de Desenvolvimento), que tinha jogos muito bons, e um feedback de cada lance apitado ou não apitado, de comissários, orientadores e da Flávia Almeida (nota: Coordenadora de Arbitragem da LNB)

Então, em 2016, recebi um convite da Fátima Aparecida da Silva, que estava como coordenadora da CBB, para participar de um camp da FIBA no Chile (que acontece junto com os Jogos Universitários) e fui, custeando todos os meus gastos. Foi um aprendizado fantástico, com feedbacks de instrutores internacionais e também da Flávia, que estava como uma das instrutoras.

Em 2017 recebi o convite da CBB para arbitrar um campeonato sul-americano U14 na Venezuela. 2019 foi um ano surpreendente, porque fui convidado para o sul-americano U14 no Equador. E a notícia de que me tornei árbitro internacional, depois de passar nos testes, além de dois campeonatos que não esperava – o sul-americano adulto e a Champions League.


Bônus – no inicio do ano de 2020, no dia 13 de janeiro, tive a pior lesão da minha vida, que foi a ruptura total do tendão patelar do joelho esquerdo, que me deixou 10 meses fora das quadras.

Foto: LNB.


Você foi premiado como Melhor Árbitro numa iniciativa muito interessante de uma empresa de quadra indoor, o Hoops Park Indoor Basketball.  Como é ser reconhecido numa iniciativa assim? E apitar torneios amadores, como você vê isso para a formação de um árbitro? 

O ano de 2021 marca um recomeço para todos os árbitros, mas pra mim foi um pouco mais especial voltar após uma lesão tão grave e conseguir manter o nível do trabalho que vinha fazendo – e tendo que pensar também em cada passo na quadra, pois em 10 meses eu precisei aprender a andar novamente.

Receber um prêmio de Melhor Árbitro do NBB do Hoops Park e do Diquinta Podcast foi pra me dar mais forças para continuar na carreira e também para glorificar todo meu “recomeço”. Acredito que apitar torneios amadores é de suma importância pro crescimento de um árbitro – com toda certeza. Após me mudar pra São Paulo, melhorou muito a minha arbitragem pela quantidade de jogos apitados. Eu apitava jogo todo dia, e como os árbitros não tem um treinamento – como os jogadores, que ficam arremessando milhares de vezes-, nós “treinamos” trabalhando, então apitar esses torneios amadores é um excelente “treinamento”.


Você é um dos árbitros, assim como a FFF e a Referee School, a empreender. Por que esse caminho? E como administrar dois ramos como gastronomia e uma empresa de treinamento?

Infelizmente os árbitros brasileiros não conseguem viver apenas com o dinheiro da arbitragem, então as minhas empresas são formas de sustento fora. E outra coisa que sempre escutei do meu pai Ricardo Mathia é que “não podemos deixar todos os ovos na mesma sacola”. E eu já tinha uma empresa de recreação com outros três sócios, lá na época que a arbitragem era para uma “grana extra”, e depois montei uma só pra mim.

Agora, a Além do Horizonte tem o foco de transformar vidas. Tenho projetos para auxiliar o desenvolvimento motor, cognitivo e afetivo/social, pois como sou psicomotricista, criei alguns projetos e os realizo na cidade de Uberlândia, e agora tento levar para outras cidades.

A empresa de gastronomia (nota: Flags – Sabores do Mundo) é com o Victor Marzano, um amigo de longa data que me convidou para aventurar nesse ramo. Então, além da necessidade de pagar as contas (risos), as empresas são em trabalhos que eu gosto e me trazem alegria e satisfação de realizar. Trabalhar em algo que você gosta nunca será um trabalho.

Foto do destaque: LNB.

Publicado por Alice Barbosa

NBA journalist and writer. Árbitros NBA creator, website/social media about NBA refereeing. ECB editor. Jornalista e escritora, criadora do projeto Árbitros NBA (site, Twitter e Instagram). Editora no Esporte Clube Basquete. Periodista y escritora, creadora del proyecto Árbitros NBA (sitio web, Twitter e Instagram). Editora en Esporte Clube Basquete. @aliceviralata @arbitrosnba

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