Os caminhos abertos por Violet Palmer

O legado esportivo e social da primeira árbitra a pisar nas quadras da NBA

Os melhores árbitros são os invisíveis, aqueles que nós nem sabemos o nome, reiteram alguns torcedores. Mas repetição não é verdade; conhecer – e respeitar – os guardiões do jogo é ultrapassar os limites do fã de franquia para se tornar um admirador do basquete. E certamente um destes lembrará da primeira rodada dos playoffs da conferência Leste, em 2006, entre Indiana Pacers e New Jersey Nets. Os 33 pontos de Vince Carter seriam importantes para o futuro desfecho da série, mas em quadra Violet Palmer consolidava sua história na NBA, fazendo a estreia da arbitragem feminina em uma partida de playoff.

O trio do apito era composto pelos também lendários Steve Javie (hoje comentarista da ESPN) e Ken Mauer (este ainda em atividade), mas o resumo do jogo, escrito pela agência AP e publicado no site da ESPN, quando critica a arbitragem, somente cita o nome de Violet:

Jason Kidd acrescentou seis pontos, 13 assistências e 11 rebotes em um jogo onde o Pacers provavelmente sentiu que foi decidido um pouco mais pela equipe de arbitragem, que incluía Violet Palmer, a primeira mulher a arbitrar um jogo pós-temporada regular. 

Rocky, o mascote do Denver Nuggets, saúda Violet durante uma partida. Foto: AP / David Zalubowski

O que poderia passar despercebido, como o texto acima da AP, por algumas vezes foi a rotina anterior desta pioneira, contratada pela NBA em 1997, juntamente com Dee Kantner – esta última atuou poucos anos na liga, trabalhando posteriormente na WNBA. Um ano antes, Violet havia sido selecionada para atuar pela Divisão I da NCAA, a liga universitária dos EUA. Porém membros do comitê da organização barraram posteriormente sua contratação, por não quererem uma mulher arbitrando jogos masculinos.

O convite retirado converteu-se em livramento, e assim Violet percorreu seu caminho na liga de basquete mais famosa do mundo. Até se aposentar das quadras em 2016, por um problema nos joelhos, ela trabalhou em 919 partidas. Seu pioneirismo se deu da mesma forma em outros esportes, sendo a primeira mulher árbitra não só na NBA, mas nas outras modalidades profissionais de elite dos EUA.

Uma precursora também sem o apito

Em 2014, o estado da Califórnia legalizou a união marital entre pessoas do mesmo sexo. Violet então decidiu formalizar seu relacionamento com a namorada de muitos anos, Tanya Stine, em uma cerimônia com 130 convidados – dentre eles, muitos de seus colegas da NBA. Ela nunca escondeu de seus pares sua orientação sexual. “Para ser honesta, eu sempre estive fora do armário. Nunca disse isso de maneira pública porque ninguém nunca me perguntou publicamente. E quando me estabeleci na liga, tendo apoio, senti que poderia dizer isso livremente e que ninguém se importaria.”

Violet segue reafirmando a representatividade na NBA. “Se eles não apoiassem a diversidade, nunca teriam me dado uma chance. Desde o início eles deram suporte a mim e para meu sucesso. Nunca recebi nenhuma impressão negativa sobre minha sexualidade vinda da liga ou dos jogadores.”

Violet Palmer contém um desentendimento em uma partida entre Heat e Raptors, sob os olhares do então técnico do Miami, Pat Riley. Foto: CNN.com

Se ofensas claras nunca chegaram aos seus ouvidos dentro de quadra, alguns jogadores, fora dela, deram declarações no mínimo sexistas sobre sua atuação. “Não podemos mais cumprimentar os árbitros com um tapinha no traseiro”, declarou Michael Jordan, na época da contratação de Violet, ao jornal Chicago Tribune.

Mas seu legado como uma mulher negra e lésbica em um ambiente masculino provou ser maior do que a discriminação sofrida na NCAA ou mais forte do que comentários como o de Jordan. No mesmo ano em que Violet revelou publicamente sua orientação sexual, a NBA contratou Lauren Holtkamp, que se tornou a terceira árbitra da liga.

Hoje Violet é coordenadora de divisões de basquete da NCAA, além de ser consultora de arbitragem e de organizar acampamentos de treinamento para árbitros.

Violet é contida para resumir sua passagem pela NBA. “Eu sabia que tinha um trabalho a fazer, e eu iria realizá-lo. Para mim, isso era mais sobre provar que eu pertencia às quadras, que sabia o que estava fazendo e que poderia ser boa.”

Os melhores árbitros são os invisíveis, aqueles que nós nem sabemos o nome.

Admiradores do basquete, nunca se esqueçam deste nome:

Violet Palmer.

Foto do destaque: Scott Halleran/Getty Images

Publicado por Alice Barbosa

NBA journalist and writer. Árbitros NBA creator, website/social media about NBA refereeing. ECB editor. Jornalista e escritora, criadora do projeto Árbitros NBA (site, Twitter e Instagram). Editora no Esporte Clube Basquete. Periodista y escritora, creadora del proyecto Árbitros NBA (sitio web, Twitter e Instagram). Editora en Esporte Clube Basquete. @aliceviralata @arbitrosnba

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